Ninguém Com Quem

“Porque foi que cegamos? Não sei… penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.”
— Ensaio sobre a Cegueira (1995)

Numa sala vazia, doze cabeças suspensas por fios de nylon parecem flutuar. Cobertas por tecido branco, cada uma apresenta, na altura dos olhos, uma dobra que funciona como venda. Incógnitas, semelhantes, indiferentes — rostos que apenas sugerem aquilo que poderiam ser.

À medida que o visitante percorre o espaço, percebe-se que não há corpos: a presença é apenas forma. As cabeças estão ali, reunidas, mas ninguém as habita.

A obra desloca o olhar para uma condição contemporânea marcada pela aparente hiperconectividade e, simultaneamente, por uma profunda ausência de presença. Entre redes sociais, avatares e métricas de validação, constrói-se uma ilusão de proximidade que frequentemente não se traduz em encontro real.

Em diálogo com esta condição, Ninguém Com Quem propõe um espaço de suspensão onde a identidade é sugerida, mas nunca plenamente realizada — como se o humano estivesse sempre a desaparecer no próprio ato de se representar.