Fragmentos de uma Subjetividade Urbana
O trabalho de Líria Varne é bastante autoral, com personalidade reconhecível. Podemos identificar “sua mão” pelo retrato estilizado que faz de temas sociais, desenhando-os com contornos marcados e traços retilíneos, que amalgamam características da modernidade, dos grafites e até das HQs. Essa equação dá aos problemas sociais um tratamento visual reconhecidamente urbano, que tem poesia, mas evita, de um lado, a plasticidade clássica, que procura embelezar a miséria, e de outro, o tratamento piedoso, que busca provocar comoção.
Isso faz com que suas obras sejam contundentes dentro de uma linguagem urbana moderna, que ainda não se acostumou com as mazelas sociais, mas já abandonou há muito tempo qualquer possibilidade de sentimentalismo ou envernizamento no tratamento da realidade. Seus quadros são extratos que estilizam a secura da cidade, como a flor que brota do concreto e com ele forma uma nova natureza.

Acrílico sobre papel, 21 × 15 cm
1997
Um olhar que atravessa a cidade, caminho entre histórias invisíveis, recolho fragmentos do quotidiano e deixo que se inscrevam no trabalho.
“A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas.”
(Ernst Fisher, 1973)

Acrílico sobre tela, 40 × 30 cm
1997
Azulejaria
“Não obstante, essa insolúvel dialética entre o local e o universal ajusta-se à dimensão cosmopolita da sua criação plástica. A escala doméstica de alguns dos seus mais recentes trabalhos, que reincidem nos vinte por vinte do canvas board, parece agregar o grafismo da azulejaria ao seu leque de referentes estéticos. Na mesma medida, a sua investigação das potencialidades de um suporte marcado pelo comedimento e pela simetria permite-lhe um recorte instantâneo e fragmentado do real, conferindo ao quadro uma espécie de teatralidade imediata. É este o caso do irretocável Dankeschön, da série Coisas incríveis acontecem, também da safra mais recente.”

Dankeschön
Acrílico sobre tela
20 × 20 cm
2013


























